quarta-feira, janeiro 17, 2007

SE NASCESSE DENOVO








Se eu nascesse novamente, mais do que sou não queria ser!

Desejaria me chamar Edilson Santana Filho, ser filho de Edilson Santana Gonçalves e Maria José Dantas, ter como avós exatamente os que tenho, possuir como primos e irmãs aqueles que hoje os são, e família infungivelmente igual a que possuo hoje.

Quereria cortar a cabeça aos seis anos de idade, cair da bicicleta aos dez, me vestir de super-herói aos sete, ganhar o "meu primeiro gradiente" aos oito, viver na cidade de Missão Velha até os nove, ir com meu avô à fazenda durante a infância e formular trocadilhos quando algo me inquietasse.

Aos doze aspiraria uma mudança à cidade de Juazeiro do Norte e logo após, à Fortaleza. Estudaria nos mesmos colégios que estudei, teria os mesmos amigos que ainda hoje tenho.

Nasceria na cidade de Barbalha; desfilaria fantasiado de sete anões; pularia de um carro em movimento; me apaixonaria inocentemente; poluiria a sala de aula com um líquido chamado peido chinês; torceria pelo Ceará Sporting Club; ingressaria no curso de Direito; e no dia quinze de maio de dois mil e quatro, por volta das vinte e três horas e meia, escreveria um pequeno texto dizendo que se algum dia viesse a mais uma vez nascer desejaria ser, certamente, o que hoje sou.


sexta-feira, janeiro 12, 2007

SALTE!






             Toda a noite se passou e nenhuma palavra.

             Um ao lado da porta direita. Outro ao lado da porta esquerda. Ambos no banco traseiro.

              A conversa rolava a todo vapor entre os demais passageiros. Rebeca, a mais extrovertida, puxava os assuntos:

- Quem aqui quer ir tomar um sorvete?

- Olha o cachorro, seu louco. Quase que bate.

- De novo! Haa...

              E os olhares dos que se encontravam nos limites do banco traseiro fixavam-se nos lados opostos da rua: um olhava para direita. Outro, para esquerda.

              Faltava um salto. Tudo o que faltava era um salto de aproximadamente quarenta centímetros.

Um salto que ia do cérebro ao coração. Um salto que ia da razão, do orgulho e de um jogo marcado, ao sentimento, à entrega total, ao medo de errar, ao amor. Tudo o que faltava era uma palavra, um gesto, uma análise de si mesmo e uma constatação de que a culpa não era de ninguém.

              Passou a noite.

              Passaram-se os dias.

              E, assim, também os meses e os anos.

            E hoje, depois de passada toda a vida, os dois arrependem-se dia após dia por não terem saltado.


PARADOXO DO SENTIMENTO


Com a mesma intensidade com que despertamos com a luz do dia os sentimentos amorosos despertam com a escuridão lunar.

Despertamos com raios solares. É bem verdade que existem algumas exceções, como os bêbados e os poetas. Viram para lá. Rolam para cá. Enterram a cabeça no travesseiro. Mas, acordam!

Ao longo do dia, involuntariamente repetimos, para nós mesmos, nossa última vitória:

- Eu a esqueci! Eu a esqueci! Eu a esqueci... Ah eu a esqueci...

- Agora sim ela vai me procurar! Mulher é assim: gosta é de ser deixada de lado!

- Há, mas quando ela me procurar. Vou dizer-lhe tudo o que está engasgado aqui: que a esqueci; Que é tarde demais; Que não significou nada para mim; Que vá embora e me esqueça; Que prefiro uma qualquer.

- E quando ela começar a chorar, e me pedir perdão. Quando disser que sem mim não vive. Que sou o amor da sua vida. Que prefere morrer a viver sem mim. Viro a cara e vou-me embora.

- Contarei para os meus amigos tudo de uma maneira hilariante. Escutarei minha secretária eletrônica na frente de todos para que escutem sua voz trêmula e seu choro. Configurarei meu e-mail para enviar suas mensagens diretamente à lixeira do computador, e darei um jeito para que ela saiba disso.

Mas os sentimentos amorosos despertam com a noite. E intensificam-se ao adentrar-lhe. E aquela repetição longa e contínua, que nos lembrava a cada instante que havíamos vencido a batalha contra o exército do coração, repentinamente desaparece. O sutil silêncio da noite faz nos sentirmos sozinhos e inseguros.

Tentamos dormi. Não conseguimos.

As notícias que chegaram até nós, sobre ela, de maneira não identificável, ao longo do dia, começam a ser analisadas.

Relutamos.

Uma música. Um filme. E pronto. Mas uma vez escravizados estamos. Refletimos e pensamos se ela também está pensando na gente naquele momento. Refletimos mais um pouco. Passamos um bom tempo refletindo. Lembramos dos momentos felizes anteriores e porvir. Pensamos até mesmo na concorrência.

- Mas ele não é de nada! Afirmamos a nós mesmos.

- Contudo é bom não facilitar! Afirmamos subconscientemente.

Decidimos ligar. Ensaiamos a fala. Tomamos coragem. E notamos que já são duas horas da madrugada.

- Amanhã eu ligarei!

Deitamos. Adormecemos pensando nela e no que iremos falar. Simulamos até a conversa que teremos, imaginando sempre que as respostas serão as melhores possíveis.

- Oi.

- Olá.

- Como Vai?

- Estou morrendo de saudades! Volta pra...

E despertamos no dia seguinte cheios de si, repetindo involuntariamente, para nós mesmos, nossa última vitória...