domingo, junho 14, 2026

Crônica - Da Copa do Mundo

O futuro tem sido desafiador. Travessão passou a ser coisa de inteligência artificial. Camisa da seleção, de partido político. Antigamente a vida era mais simples. Com exceção das camisas de times de futebol, usávamos todas as cores e caracteres sem nos preocuparmos com os rótulos.

Pensando bem, a camisa da seleção brasileira é de futebol, o que a faz entrar nas exceções e me leva a pensar que o mundo não mudou muito. Eu mudei de time com o passar do tempo. Larguei o verde para abraçar o alvinegro, na expectativa de maiores conquistas. Continuo perdendo mais do que ganhando. Pensando melhor, parece mesmo que as coisas não mudaram muito. Aliás, verde continua sendo minha cor preferida, exceto quando se trata de camisas de futebol. Acho que é coisa para levar ao divã.

Quando me deitei no sofá, notei que o psiquiatra vestia uma incrível combinação de verde, branco e preto. Improvável, mas muito elegante, por sinal. Ele não sabe, mas a vestimenta foi a maior lição da tarde. Saí mais flexível quanto às cores; o difícil é o futebol. Concluí que o problema é a paixão pela bola.  

Torcemos pelo improvável. São quarenta e oito seleções na Copa. Segundo a IA, isso equivale a um quarenta e oito avos, ou pouco mais de dois por cento de chance, para cada uma levantar a taça. Se eu trocasse as vírgulas pelo travessão, a frase anterior ficaria mais clara. Mas, poderiam confundir minha crônica com um texto de inteligência artificial.

Com ou sem travessão, a matemática é clara: a chance maior é de derrota. Na prática, contudo, a conta não serve. Depende da camisa. Até hoje, apenas oito conseguiram ser campeões mundiais desde a criação do torneio. A amarelinha tem cinco títulos, está no topo e, portanto, a probabilidade de vencer é maior, de forma que todos os esforços da IA para me convencer do contrário foram inúteis. Aliás, dizem que essas inteligências artificiais são todas enviesadas. É melhor não confiar.

Em dia de jogo temos que manter a tradição. O problema é o preço do manto sagrado. Há alguns anos resolvi investir. Afinal, na Copa nosso patriotismo aflora. Não dei sorte. A camisa ficou marcada pelos sete a um. Duas Copas depois, aqui estou eu pensando se pago à vista ou divido em parcelas intermináveis. 

Comprar a camisa da seleção pode ser um investimento, segundo a IA. Se o hexa vier, o acessório pode passar a valer muito e o Brasil é favorito, conforme uma melhor análise da probabilidade, ponderada após alguns ajustes no prompt . É melhor confiar. Pior do que a inteligência artificial é a burrice humana.

A estreia seria em algumas horas. Saí da loja devidamente trajado. Amarelo dos pés ao pescoço e decidido a não abandonar o travessão.

domingo, setembro 16, 2012

O Céu e o Mar


Será o mar fingindo ser céu,
ou o céu querendo ser mar?

Distantes na matéria,
mas unidos pela imensidão.

Fisicamente corpos distantes.
Sempre juntos, todavia,
na infinitude do horizonte.

Em fim, conclui-se que fingimento não há,
pois como nós são um só,
o céu e o mar.

Foto: arquivo pessoal. Paisagem natural – em  algum lugar entre os Estados do Maranhão e Ceará - Brasil.

segunda-feira, julho 23, 2012

Ser Eudemonista (A busca da felicidade)


A busca da felicidade é algo incessante. Todos nós vivemos cada um dos nossos minutos agindo no presente para, no futuro, termos momentos que nos proporcione alegria e tranquilidade. Uns são mais imediatistas; outros nem tanto. Contudo, ninguém quer esperar para ser feliz. Queremos ser e ter hoje!

O eudemonismo é uma filosofia grega segundo a qual o homem veio para a terra a fim de buscar a felicidade, sendo esse o objetivo de sua existência.

Nos nossos dias contemporâneos a ideia está completamente em voga. É necessário se permitir que cada indivíduo, valorizado como pessoa humana, busque o seu projeto de vida.

Em uma ordem social racional o governo, as instituições, como a família e a sociedade,  devem existir para proteger o direito do homem de ir em busca da sua mais alta aspiração, que é, essencialmente, a felicidade e o bem-estar.

Importante, todavia, compreender que o fim almejado está no resultado coletivo. A felicidade só se completa quando há harmonia por todo o seu redor. Em outros dizeres, para haver planície fértil ao seu desenvolvimento não basta que um seja feliz, mas que a satisfação de todos propicie um ambiente apto ao alargamento de uma cultura de mútuo e pleno adiantamento.

Foto: arquivo pessoal. Sobrevoando Fortaleza - CE - Brasil.

sexta-feira, março 23, 2012

FUTURO INCERTO


Construo e reconstruo o futuro em minha mente.
Sem saber ao certo como será, traço conjecturas, ora com ânimo, ora pessimistas. Mas, essas, sempre  apagadas por boas imagens.
Tento buscar em fatos passados recordações ou experiências que me tragam tranquilidade em face do que está por vir.
Torço para que chegue logo. Porém, por vezes, vibro pela demora. Volto a ter pressa,  assim que entra em cena a esperança e a fé.
Sei que plantei boas sementes. Sua semeadura foi árdua, mas nenhum fardo impossível de se carregar. Teria agora chegado o momento  da colheita? Sabe Deus! E um homem em breve saberá. Enquanto isso continua lavorando...
Foto: arquivo pessoal. Geopark Araripe - Geotope Devoniano - Cachoeira de Missão Velha – Ceará.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

A PROMESSA

Ano acabando e minha promessa tem prazo a vencer.
O exíguo período de tempo restante me faz duvidar, de forma incessante, da força dos santos em quem confiei. Ou seria falta de merecimento? Em meio ao balanço das ideias, minhas crenças vacilam.
Contudo, o ciclo de 365 dias ainda não findou. O prazo, assim, não expirou. E isso me renova a fé.
Penso novamente.
Por fim, prefiro acreditar. Sonho com uma sabedoria superior. Certamente essa poderá solucionar o caso em um único instante, não obstante... Nada obstante! Tenho fé. Não é verdade que ela remove montanhas?
Retiro-me em ansiedade preferindo crer. Talvez tenha que renovar as crenças para o ano vindouro, é certo. Talvez... somente talvez. E isso me faz acreditar!


Foto: arquivo pessoal.  Basílica de Nossa Senhora Aparecida – Aparecida –SP.

sábado, julho 16, 2011

HOMENAGEM A ANTÔNIO PORTO DE CASTRO JUNIOR

 
            Um grande homem se perfaz em dois aspectos: um de ordem moral; e o outro se constitui em âmbito intelectual. Poucos e raros são os que atingem excelência em ambos.

Antônio Porto foi raridade nesta vida terrena. Ultrapassou a barreira do comum com naturalidade, despertando reconhecimento e admiração por parte dos que o conheciam.
Privilegiados foram aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ser de tamanha grandeza. O cotidiano do Portinho revelava uma existência de engrandecimento cultural e elevação. O modo polido de se portar confirmou a genialidade também na seara moral.
Amava sua família de forma incondicional. Chamou por sua mãe, sua esposa e seu filho até os últimos dias de sua vida.
O poeta Antônio Porto prezava por um português falado e escrito de forma correta e gostava da simplicidade, dos mais humildes, abominando as ostentações e as coisas materiais.
A medida de tudo isso ficou em nossos corações. Contrariando Vinícius de Morais, foi eterno, pois sua chama nunca se apagou. Fez-se infinito...
                            Edilson Santana G. Filho e Antônio Davi Macedo de Castro


Foto: arquivo pessoal. Montoya - Punta Del Este - Uruguai.

sexta-feira, abril 08, 2011

CRESCIMENTO

Léon Denis, eminente e reconhecido estudioso francês, defensor da ideia de existências sucessivas (reencarnação), aduz que “à saída de cada vida terrestre, a alma colhe o fruto das experiências adquiridas; aplica suas forças e faculdades no exame da vida íntima e subjetiva; procede ao inventário de sua obra terrestre; assimila as partes úteis e rejeita o elemento estéril.” *

    Seria necessário, todavia, aguardar a morte para realizar tal reflexão?

    Não se pode negar aplicar-se ao ser humano a lei do progresso. Pode ele, assim, melhorar-se, evoluir. E mais, o que foi dito pode ocorrer dia a dia, hora-a-hora, minuto a minuto.

    Imperioso dedicar-se, destarte, diuturna e disciplinarmente, a uma auto-observação própria e constante, de modo a permitir melhora individual, resultante, em última análise, em resultado geral (coletivo), tendo em conta a premissa segundo a qual mudanças na parte modificam o todo.

    Trata-se, pois, de exercício altruísta, ao inverso do que se pode imaginar aprioristicamente.

* DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor.
 


Fotos: arquivo pessoal. Praia de Jericoacoara - Ceará - Brasil.

terça-feira, julho 13, 2010

AQUI REPOUSA O INFORTÚNIO - IMPRESSÕES DE ALGUNS DIAS DE DOR - IMPRESSÕES DE VARICELA

 









Aqui repousa o infortúnio.
Entre o vermelho que me toma a pele e o alvo encobridor do leito onde espero incessante a hora em que irá partir se deita, ele, junto ao meu corpo com seu ar febril e pálido.
Repousa. Parece não ter hora ou compromisso algum. Dorme o meu sono; come o meu apetite; leva a minha voz...
Em troca não me deixa tanto penar. Estará ele de bom humor? Diante do que já fez a outros apenas me resta crer que sim! Agradece-o, talvez.
Mesmo assim sua moeda é fraca; o escambo não é seu forte. Talvez por isso chegue sem aviso prévio. Impõe-se! Impõe-se aos mais fortes e viris! Agora está aqui!
Durmo... Um sono longo, à espera que se vá. Quiçá para nunca voltemos a nos descobrir.



Foto: arquivo pessoal. Praia de Flexeiras - Ceará - Brasil.

segunda-feira, março 29, 2010

DOM













Não existe dom. Existe esforço.

É incrível como todos ao meu redor se dizem ótimos em tudo o que fazem. Enquanto isso eu apenas me esforço para conseguir galgar algumas conquistas, as quais quase sempre vêm em passos rasos.
Esforço-me para não ser apenas aquele de um brilhante futuro, que seria glorioso, bem-sucedido. O inteligente que não soube aproveitar tal característica, pois sei que aqui na terra não existe inteligência, não há dom.
O que realmente vale é o empenho de cada um para lograr êxito em seus objetivos, crescer e ser vitorioso.
Desejo ser e ter no presente, por isso luto.
Dons? Vejo-os mais como desculpas para quem tentou e não conseguiu; como forma de achar que outros tiveram facilidade em seu caminhar, enquanto se anda por entre terrenos tortuosos.
Prefiro acreditar que todos somos iguais, apesar de não o serem as oportunidades. De resto, é possível separar aqueles que apenas querem daqueles que almejam e se esforçam.


Foto: arquivo pessoal. Placa fincada em frente ao Supremo Tribunal - Praça da Cagancha - Montevidéu - Uruguai.

terça-feira, março 09, 2010

HOMEM DE BEM











     O esforço é grande e o homem é pequeno!

    Os grandes homens lutam diuturnamente para reverter esse padrão, assim como o fez Diogo, segundo nos conta Fernando Pessoa.

    Mas como revertê-lo? O que fazer para ser grande? De quanto esforço temos que dispor para atingir a grandeza?

    É preciso muita coragem, ânimo e empenho. Necessário se faz, muitas vezes, deitar e não dormir; comer e não degustar; beber água e não saciar a sede; deixar o que se quer pelo não querer, o certo pelo duvidoso, o amanhã calmo e tranquilo por um cansaço exaustivo. Tudo isso na certeza de um fim que não se sabe ao certo se virá.

    A grandeza, meus caros, não é para quem pode. É para quem quer, pois dessa faculdade todos nós somos dotados. Ela é muito mais do que uma conquista material.

    Altos cargos, bens luxuosos, poder, se apequenam, quase somem, quando à frente da verdadeira grandeza de um ser. Mas é preciso reconhecer: muitas vezes, tais materialidades nos fazem confundir matéria e espírito. A verdadeira grandeza é de espírito!

    Um verdadeiro homem tem amor no coração. Imprescindível ser pessoa de bem para tornar-se grande. Sem isso todo esforço será em vão.


Foto: arquivo pessoal. Campos do Jordão - São Paulo - Brasil.

sexta-feira, abril 10, 2009

TESTAMENTO







    Quando falecer saibam que possuo dois desejos: quero que meus órgãos sejam doados e que o meu corpo seja cremado, o que deve ser feito, inexoravelmente, nesta ordem.
    Doação por constituir um ato de solidariedade humana. As vidas de muitos poderão ser salvas, ou terão um salto de qualidade, em virtude de algo que para mim não terá mais utilidade alguma. Com isso terei a certeza de que um dia, mesmo em ato póstumo, contribuí para a felicidade de alguém.
    O ato da cremação é também importante. Não existe proveito algum em enterrar alguém. Coloca-se um corpo em um caixão que permanece anos ocupando lugares que poderiam servir como local de moradia para muitos desabrigados ou, até mesmo, como culturas de alimentos para aqueles que passam fome etc.
    Além disso, dentro de pouco tempo o corpo se decompõe e o que sobra é somente a madeira e a lápide.
    Contudo, devo revelar que toda essa retórica esconde um grande segredo: morro de medo de um dia acordar dentro do caixão (de ser enterrado vivo).

domingo, março 22, 2009

DUAS VEZES "S"

(Ao sobrinho Saulo Filho)







    Ele fica ali, parado, um grão em meio a esse mundo de gigantes, mas tem a força de fazer qualquer grandão ficar horas paralisado, simplesmente entorpecido, observando, como quem olha uma estrela: ela está no mesmo lugar; possui sempre o mesmo brilho; não se move, contudo a cada segundo o que se vê parece ser algo totalmente novo, diferente, que atrai.
    Em seus gestos contidos faz bico, careta, entretanto é impressionante, não perde a beleza.
    Adora colocar seus pequenos braços para cima, talvez em sinal de comemoração por ter alcançado aquilo que é o maior prêmio para quem se encontra neste mundo, da vida.
    Para um amador da escrita é a maior inspiração. Também, como não haveria de ser. Amador deriva de amor, e amor é o que transpira de sua imagem, é o que paira ao seu redor.
    Por fim, me resta certeza de que, dentro em décadas, se vida ainda me restar, poderei dizer que ele veio, viu e venceu.










segunda-feira, junho 02, 2008

LINGUAGEM







    Singrava lépido por entre ondas encrespadas das entrelinhas de um opúsculo redigido a punho próprio, o qual quedava-se ainda em seus prolegômenos, quando um famigerado interiorano transeunte se aproximou e disse:

- Oxe, tá abirobado é? Se embiocou aí dentu e se abufelou aí mais esse troço já faz uma ruma tempo. Nem parece aquele caba véi pai d´egua de Cedro. Deixe de leriado e vamo logo capar o gato, e num baldei não.

    Energúmeno, pensei: que linguagem mais abstrusa a desses cearenses.

 "Comunicar é a simples arte de se fazer entender por aquele que te escuta, seja quais forem as palavras ou grau de instrução."

quarta-feira, maio 09, 2007

A PRESENÇA DE DEUS





    Quando criança basta uma simples oração para sentirmos todo fervor da presença de Deus. É como se um manto quente nos cobrisse e nos desse uma sensação de calor ideal: nem quente e nem frio. É como se fôssemos encobertos por nossas mães, que permaneceriam ao lado da cama até que dormíssemos.

    Contudo, com o tempo, esta sensação de fervor e paz que nos invadia a cada oração torna-se cada vez mais tênue e branda. E é exatamente nesse momento, quando passamos a ser considerados pessoas capazes de praticar, sozinhos, atos da vida cotidiana, quando passamos a responder por nós mesmos, quando adquirimos, dia após dia, mais responsabilidade e maturidade, que necessitamos despertar aquela criança que com o tempo adormeceu.

    Torna-se necessário não só despertá-la, mas também alimentá-la, para que ela possa se fortificar com os dias, fortalecendo a nós mesmos. Precisamos, assim, buscar o alimento, e devemos buscá-lo em Deus, traduzindo-o em um grupo de orações, em uma igreja, na oração pessoal, e acima de tudo no afeto familiar, unindo, então, tudo isto para que possamos dar uma alimentação ideal a este menino que se chama Amor.

    E não basta apenas crer, ou ler um belo texto, ou ainda escutar um belo testemunho. Deve-se agir, e atender aos chamados que este menino nos envia a cada instante. Chamados estes que se escondem por atrás de uma voz, de um convite, ou quiçá, por trás até de um simples texto de natal.

sexta-feira, março 23, 2007

O MELHOR DO MUNDO








Qual a melhor coisa do mundo? Muitos diriam que é sexo ou mulheres, ou, ainda, sexo com mulheres. Responderiam Deus, religião, conhecimento, amor, filhos, festas etc.

A melhor coisa do mundo é realizar seus desejos! É realizar imediatamente o que se deseja. Assim, não há “a melhor coisa do mundo”, mas as melhores coisas. Poderia dizer-se, ainda, que há uma melhor coisa para cada instante. A cada novo momento algo novo, um novo desejo e uma possível nova realização.

Nada mais lógico diante do fato de que o homem vive em constante mutação. Para um faminto, por exemplo, comer é a melhor coisa que existe. Para alguém com muita sede é a água.

Dessarte, a “melhor coisa” está intimamente relacionada com o desejo humano. E em virtude da essência do homem nunca será alcançada por completo. Haverá sempre algo novo a se realizar. O importante, então, é desvincular-se daquilo que não podemos controlar totalmente e vincular-se aquilo que depende única e exclusivamente de nós. Só assim será possível viver provando sempre do melhor que a vida tem a nos oferecer, vivendo prazerosamente e evitando dissabores que muitas vezes levam a um caminho sombrio.


quinta-feira, março 08, 2007

AVÓS







Os avós são a parte boa dos pais. Isso, talvez, pelo fato de não mais possuírem a obrigação de educar os netos como tinham com seus filhos, tendo que, não raro, contrariá-los, ficando às vezes de coração partido, mas preparando-os da melhor maneira para a vida. Sobra, assim, a parte boa: presentinhos, passeios, mimos etc.

Contudo, a convivência com os avós pode ser efêmera. Geralmente já os conhecemos velhinhos. Em média, pode-se afirmar que possuímos cerca de duas décadas para usufruirmos de nossos grandfathers. E o que são vinte anos quando presentes apenas na memória, quando já vividos?
Como já nos alertava Schopenhauer “Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve.”

Talvez por isso, nós, animais de tenra idade, não percebemos o quão ínfimo é esse prazo. Justamente por isso é importante estarmos ao máximo com nossos ancestrais de segundo grau em linha reta. Eles podem não estar mais lá quando lembrarmos. Afinal, tudo o que é bom na vida se esvai com rapidez.

Talvez um dia, quando, enfim, nos ocorrer, não seja mais possível dizer “eu te amo”. Não haja mais oportunidade de deitar-se ao colo da vovó ou sorrir diante de um carinho do vovô. Um dia, quem sabe, quando tivermos nossos próprios netos, poderemos perceber tamanha a importância dos nossos velhinhos, e quanto valor eles nos dão.

Por fim, quem sabe em algum momento de nossas vidas, nos perdoemos por termos deixado escapar tão extraordinárias oportunidades de estarmos com nossos vozinhos e vozinhas. E vendo nossos netos, o perdão será lançado, ao percebemos que o que sentimos por eles é tão intenso, que a suas simples existências já bastam para sermos felizes.

sexta-feira, março 02, 2007

HOMENAGEM À MULHER








    Há milhares de anos Deus criou a terra e, junto a esta, o homem. Esse, ser supremo, superior dentre os animais, que tudo possuía, sentiu que algo lhe faltava.

    O criador, percebendo sua inquietação, presenteou-lhe criando a mulher, um ser belo e cândido, fiel e sábio, cuja ternura o faz conhecer o bem e o mal mais prazeroso, o faz agir como criança e por muitas vezes alimentar uma tênue esperança de um dia ao seu lado viver.

    Desde então, quantas “Evas” passaram, quantas lutaram, e venceram, e vencem, e provam a cada dia que o amor é um paradoxo.

    Escravo? É certamente o homem! Pois quem pode livre ser, vendo-a com juízo sossegado, se o cupido que de olhos é privado, dentro de vossos olhos mora.

 

DIA 08 DE MARÇO. DIA DA MULHER.


segunda-feira, fevereiro 05, 2007

COMO SABER SE É FELIZ








Acredito que toda pessoa possui recordações de pelo menos um momento do qual lembra-se com bastante saudade, pelo fato de ter sido uma ocasião de felicidade enorme. Lembranças de uma época em que se foi feliz. Como quando, recordando algo, afirmamos: como era bom naquele tempo!

Geralmente, durante todo o dia, pensamos no que passou e no porvir. Fazemos planos, recordamos fatos, pessoas etc. Gastamos cerca de noventa e cinco por cento do nosso tempo pensando no passado e no futuro, o restante fica com o presente.

Pensando nisso cheguei à conclusão de que sou feliz. Sou feliz agora, no presente! E não foi necessário muito esforço. Bastou me imaginar anos à frente, uns vinte, por exemplo, e pensar no que diria a mim mesmo quando lembrasse da época em que hoje vivo. Indubitavelmente eu pensaria: como era bom naquele tempo!

quarta-feira, janeiro 17, 2007

SE NASCESSE DENOVO








Se eu nascesse novamente, mais do que sou não queria ser!

Desejaria me chamar Edilson Santana Filho, ser filho de Edilson Santana Gonçalves e Maria José Dantas, ter como avós exatamente os que tenho, possuir como primos e irmãs aqueles que hoje os são, e família infungivelmente igual a que possuo hoje.

Quereria cortar a cabeça aos seis anos de idade, cair da bicicleta aos dez, me vestir de super-herói aos sete, ganhar o "meu primeiro gradiente" aos oito, viver na cidade de Missão Velha até os nove, ir com meu avô à fazenda durante a infância e formular trocadilhos quando algo me inquietasse.

Aos doze aspiraria uma mudança à cidade de Juazeiro do Norte e logo após, à Fortaleza. Estudaria nos mesmos colégios que estudei, teria os mesmos amigos que ainda hoje tenho.

Nasceria na cidade de Barbalha; desfilaria fantasiado de sete anões; pularia de um carro em movimento; me apaixonaria inocentemente; poluiria a sala de aula com um líquido chamado peido chinês; torceria pelo Ceará Sporting Club; ingressaria no curso de Direito; e no dia quinze de maio de dois mil e quatro, por volta das vinte e três horas e meia, escreveria um pequeno texto dizendo que se algum dia viesse a mais uma vez nascer desejaria ser, certamente, o que hoje sou.


sexta-feira, janeiro 12, 2007

SALTE!






             Toda a noite se passou e nenhuma palavra.

             Um ao lado da porta direita. Outro ao lado da porta esquerda. Ambos no banco traseiro.

              A conversa rolava a todo vapor entre os demais passageiros. Rebeca, a mais extrovertida, puxava os assuntos:

- Quem aqui quer ir tomar um sorvete?

- Olha o cachorro, seu louco. Quase que bate.

- De novo! Haa...

              E os olhares dos que se encontravam nos limites do banco traseiro fixavam-se nos lados opostos da rua: um olhava para direita. Outro, para esquerda.

              Faltava um salto. Tudo o que faltava era um salto de aproximadamente quarenta centímetros.

Um salto que ia do cérebro ao coração. Um salto que ia da razão, do orgulho e de um jogo marcado, ao sentimento, à entrega total, ao medo de errar, ao amor. Tudo o que faltava era uma palavra, um gesto, uma análise de si mesmo e uma constatação de que a culpa não era de ninguém.

              Passou a noite.

              Passaram-se os dias.

              E, assim, também os meses e os anos.

            E hoje, depois de passada toda a vida, os dois arrependem-se dia após dia por não terem saltado.


PARADOXO DO SENTIMENTO


Com a mesma intensidade com que despertamos com a luz do dia os sentimentos amorosos despertam com a escuridão lunar.

Despertamos com raios solares. É bem verdade que existem algumas exceções, como os bêbados e os poetas. Viram para lá. Rolam para cá. Enterram a cabeça no travesseiro. Mas, acordam!

Ao longo do dia, involuntariamente repetimos, para nós mesmos, nossa última vitória:

- Eu a esqueci! Eu a esqueci! Eu a esqueci... Ah eu a esqueci...

- Agora sim ela vai me procurar! Mulher é assim: gosta é de ser deixada de lado!

- Há, mas quando ela me procurar. Vou dizer-lhe tudo o que está engasgado aqui: que a esqueci; Que é tarde demais; Que não significou nada para mim; Que vá embora e me esqueça; Que prefiro uma qualquer.

- E quando ela começar a chorar, e me pedir perdão. Quando disser que sem mim não vive. Que sou o amor da sua vida. Que prefere morrer a viver sem mim. Viro a cara e vou-me embora.

- Contarei para os meus amigos tudo de uma maneira hilariante. Escutarei minha secretária eletrônica na frente de todos para que escutem sua voz trêmula e seu choro. Configurarei meu e-mail para enviar suas mensagens diretamente à lixeira do computador, e darei um jeito para que ela saiba disso.

Mas os sentimentos amorosos despertam com a noite. E intensificam-se ao adentrar-lhe. E aquela repetição longa e contínua, que nos lembrava a cada instante que havíamos vencido a batalha contra o exército do coração, repentinamente desaparece. O sutil silêncio da noite faz nos sentirmos sozinhos e inseguros.

Tentamos dormi. Não conseguimos.

As notícias que chegaram até nós, sobre ela, de maneira não identificável, ao longo do dia, começam a ser analisadas.

Relutamos.

Uma música. Um filme. E pronto. Mas uma vez escravizados estamos. Refletimos e pensamos se ela também está pensando na gente naquele momento. Refletimos mais um pouco. Passamos um bom tempo refletindo. Lembramos dos momentos felizes anteriores e porvir. Pensamos até mesmo na concorrência.

- Mas ele não é de nada! Afirmamos a nós mesmos.

- Contudo é bom não facilitar! Afirmamos subconscientemente.

Decidimos ligar. Ensaiamos a fala. Tomamos coragem. E notamos que já são duas horas da madrugada.

- Amanhã eu ligarei!

Deitamos. Adormecemos pensando nela e no que iremos falar. Simulamos até a conversa que teremos, imaginando sempre que as respostas serão as melhores possíveis.

- Oi.

- Olá.

- Como Vai?

- Estou morrendo de saudades! Volta pra...

E despertamos no dia seguinte cheios de si, repetindo involuntariamente, para nós mesmos, nossa última vitória...