domingo, junho 14, 2026

Crônica - Da Copa do Mundo

O futuro tem sido desafiador. Travessão passou a ser coisa de inteligência artificial. Camisa da seleção, de partido político. Antigamente a vida era mais simples. Com exceção das camisas de times de futebol, usávamos todas as cores e caracteres sem nos preocuparmos com os rótulos.

Pensando bem, a camisa da seleção brasileira é de futebol, o que a faz entrar nas exceções e me leva a pensar que o mundo não mudou muito. Eu mudei de time com o passar do tempo. Larguei o verde para abraçar o alvinegro, na expectativa de maiores conquistas. Continuo perdendo mais do que ganhando. Pensando melhor, parece mesmo que as coisas não mudaram muito. Aliás, verde continua sendo minha cor preferida, exceto quando se trata de camisas de futebol. Acho que é coisa para levar ao divã.

Quando me deitei no sofá, notei que o psiquiatra vestia uma incrível combinação de verde, branco e preto. Improvável, mas muito elegante, por sinal. Ele não sabe, mas a vestimenta foi a maior lição da tarde. Saí mais flexível quanto às cores; o difícil é o futebol. Concluí que o problema é a paixão pela bola.  

Torcemos pelo improvável. São quarenta e oito seleções na Copa. Segundo a IA, isso equivale a um quarenta e oito avos, ou pouco mais de dois por cento de chance, para cada uma levantar a taça. Se eu trocasse as vírgulas pelo travessão, a frase anterior ficaria mais clara. Mas, poderiam confundir minha crônica com um texto de inteligência artificial.

Com ou sem travessão, a matemática é clara: a chance maior é de derrota. Na prática, contudo, a conta não serve. Depende da camisa. Até hoje, apenas oito conseguiram ser campeões mundiais desde a criação do torneio. A amarelinha tem cinco títulos, está no topo e, portanto, a probabilidade de vencer é maior, de forma que todos os esforços da IA para me convencer do contrário foram inúteis. Aliás, dizem que essas inteligências artificiais são todas enviesadas. É melhor não confiar.

Em dia de jogo temos que manter a tradição. O problema é o preço do manto sagrado. Há alguns anos resolvi investir. Afinal, na Copa nosso patriotismo aflora. Não dei sorte. A camisa ficou marcada pelos sete a um. Duas Copas depois, aqui estou eu pensando se pago à vista ou divido em parcelas intermináveis. 

Comprar a camisa da seleção pode ser um investimento, segundo a IA. Se o hexa vier, o acessório pode passar a valer muito e o Brasil é favorito, conforme uma melhor análise da probabilidade, ponderada após alguns ajustes no prompt . É melhor confiar. Pior do que a inteligência artificial é a burrice humana.

A estreia seria em algumas horas. Saí da loja devidamente trajado. Amarelo dos pés ao pescoço e decidido a não abandonar o travessão.

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